Especial Mês das Mães

Principais Pontos

Mães-Sistema e Mães de Sistemas

Já tratamos aqui sobre Mulheres que convivem com condições dissociativas como o TDI (Transtorno Dissociativo de Identidade), OTDE (Outro Transtorno Dissociativo Especificado) e dentre outros, já enfrenta muitas dificuldades, como já até foi apresentado neste site. Mas, e quando elas são mães? Difícil imaginar os desafios amplificados que equilibra tantas demandas internas e externas da vida. Há também mulheres que não vivem sob dificuldades psicológicas, mas que tem filho ou filha que desenvolveram o transtorno. Como elas lidam com isso? O relacionamento, a descoberta do diagnóstico, a visão da família e amigos, o estigma social?

A seguir, relatos de mães que são sistemas (pessoas com TDI/OTDE) e mães de sistemas.

RELATO DE SISTEMA ORQUESTRA E OUTRAS MÃES

No geral, trazemos para vocês posts onde temos fontes, dados, artigos e afins mas dessa vez eu acho, que para falar sobre algo tão forte e tão delicado, precisamos de uma conversa informal.

Para quem não sabe, Orquestra é mãe há 13 anos e podemos dizer facilmente, que de todas as nossas realizações, a nossa filha é mais significativa. Eu conversei com outras duas mães múltiplas e ouvi mais duas mães de sistema durante a pesquisa para este arigo do Sistemando e, até mesmo conversas com a nossa mãe, fizeram com que víssemos outros lados da história. Queria tratar isso como uma grande conversa, até porque eu pedi para que elas apenas falassem tudo o que sentissem vontade de falar.

Ser mãe, para Orquestra, foi entre uma serie de coisas: Confuso, nós éramos muito novos quando ela chegou e o mundo mudou completamente. Como todo sobrevivente de trauma, passamos toda a nossa vida tentando apenas sobreviver, mas a maternidade veio pra gente com essa coisa de ser uma pessoa melhor e pra isso, ela vai estampar todos os seus problemas.

Eu lembro de noites sem entender quem estava no fronte lidando com as coisas, pois era tudo tão corrido e tão barulhento, que chegava a ser bastante desorientador, muitas fraldas foram trocadas durante as dissociações. Sempre me perguntam sobre minha filha e os alters, bom, neste sistema, a maioria de nós não aparece o suficiente para ter de fato alguma responsabilidade, todos sabem quem ela é, como as coisas são feitas, mas aqueles que aparecem todos tem algum laço emocional com ela, seja vendo-a como uma filha, sobrinha, prima ou irmã mais nova. Gosto de dizer que ela tem um monte de gente para amá-la.

Ser mãe e ter TDI, é melhorar, ser alguém melhor, fazer terapia, exercer paciência, aprender que existem coisas em nós mesmos que precisamos mudar, aprender a trabalhar em equipe, garantir o tempo todo que tudo funciona e acima de tudo, comunicação exemplar.

É sobre não repetir ciclos, não traumatizar, embora parte de nós saiba que isso é quase impossível. Seguir tudo isso à risca o tempo todo é humanamente impossivel.

Conversando com outras mães “sistêmicas”, é engraçado pensar que mesmo que tenhamos passado por essa experiência em idades tão diferentes, tínhamos tanto em comum. Desde as dissociações em maior quantidade devido ao estresse, até mesmo ao medo de não dar conta ou fragmentar ainda mais no caminho, medo de reproduzir comportamentos não saudáveis que nos adaptamos a ter.

Mas também entendi que algo em todas/todes nós, quase instintivo, que fez com que todo o nosso mundo se adaptasse aos nossos filhos, acredito que seja disso que quase todo mundo fala, sobre as crias que mudaram a vida das mães pra sempre. Longe de nós falar que toda pessoa com útero tem esse instinto materno e protetor e que nós devemos gestar… Não, não é sobre isso! Mas pelo menos para Orquestra, se tornou nosso objetivo de vida garantir que ela tenha tudo o que precisar e além.

AS DIFICULDADES DISSOCIATIVAS
Um obstáculo presente foi a dissociação, em grau maior ou menor, nós três experienciamos isso em algum momento e através disso ter artimanhas para que as coisas continuem sempre no lugar, não perder tempo, não ter apagões, alarmes, músicas e anotações. E sim, isso de fato é perigoso, é complicado perder tempo, passar alguns minutos que seja, mas faz parte do processo lidar com isso, todos temos que lidar com algo no final das contas.

Diferente das entrevistadas de quem colhi alguns relatos, Orquestra era a única que não sabia que era um sistema até os seis anos da nossa filha e podemos afirmar com bastante propriedade, que saber dessa informação teria mudado, explicado e facilitado muita coisa. Então sim, essa é nossa reclamação rápida sobre como a informação e o acesso a ela é tão importante para todos nós.

OS FILHOS ENTENDEM A MULTIPLICIDADE DAS MÃES?

De nós três, Orquestra é a única que o filho saiba do sistema de alguma forma, pois além de falar sobre isso de forma tão aberta, somos os únicos que temos uma filha em idade o suficiente para entender sobre. Ela não entende ao certo sobre o porquê, acreditamos que essa conversa vá falar sobre traumas nossos e coisas que ela ainda não tem idade o bastante, mas entende há alguns anos, que existimos, que co-existimos e que todos sabem dela e cuidam dela.

Ela não entende bem o conceito de trocas, embora de certa forma, as sinta e esse ponto digo isso, pois nós mesmos temos nosso próprio jeito de lidar com ela, embora grandes escolhas sejam feitas em conjunto, mas todos temos nossa própria maneira de executá-la.

Nós gostaríamos de todos os dias, impedir que as coisas ruins cheguem a nossa filha, queríamos inclusive poder proteger ela de qualquer coisa ruim do mundo, mas apenas podemos impedir com ela, que ciclos que nos adoeceram voltem a se repetir. Embora muito novos na época, embora não tenhamos consciência do que estava acontecendo com a gente. Nossa filha nos mudou, nos curou e nos salvou de mais formas do que ela é capaz de imaginar, e despertou em nós um amor tão grande que jamais imaginaríamos sentir.

E AS MÃES DE SISTEMAS?

Já com as mães de múltiplos, esse embora não seja nosso local de fala, pelos relatos eu consigo entender toda a confusão sobre quando uma nova realidade muda toda a sua vida e sua relação com alguém que se ama. Muito me falar do susto e do medo de descobrir que existe mais que uma pessoa na mente de alguém que até então você viu dar os primeiros passos. Na nossa experiência, com a nossa mãe, ao mesmo tempo que parecia que um mundo novo tinha sido aberto, com várias coisas que agora tinham nome, parecia ter um véu de preocupação, medo e possivelmente culpa.

Existe uma linha de aprendizado quando a gente se descobre múltiplo, e é quase impossível que as pessoas ao nosso redor, especialmente aquelas com vínculos fortes, não façam parte dela. Em algum momento as mães tiverem que lidar com os traumas, as dissociações, as trocas e todas as situações que o transtorno pode trazer.

Dentro desta linha, tanto Helenice (a mãe de Cogs), a mãe de Orquestra (que preferiu não se identificar diretamente) e a Cristiane, mãe do sistema Resiliência, trouxeram a questão do medo e as complicações com as pessoas em geral. O medo da não compreensão, do preconceito e por talvez por um momento de nós, por não entender como as coisas funcionavam.

Existiu dedicação, curiosidade, vontade de entender para assim poder ajudar. Existiu uma adaptação feita, mulheres que escolheram aprender mais, para poder dar um suporte melhor. Uma frase que a mãe do Sistema Cogs disse e me fez pensar foi:

“Tem mãe de autista, de TDAH, mãe de PCD e todas elas amam seus filhos
assim como as mães de pessoas com TDI também amam seus filhos”

E de fato, quando lembramos que o transtorno começa na infância, é muito comum que a culpa caia nos pais, especialmente, na mãe, mas nem sempre esse trauma veio dos cuidadores, existem várias formas de uma mente precisar se defender e um trauma na infância, nem sempre significa que a culpa é dos pais. Nossos pais foram bons pais, isso não significa que eles não tiveram suas falhas, defeitos ou erros, mas não fomos criados a partir de negligência ou falta de amor, não no nosso caso, tivemos uma mãe que nunca nos deixou sozinhos e um pai que nunca deixou de cuidar de nós.

A Cris levantou sobre a sensação sobre toda a mudança de vida que tanto ela quanto a filha teve ao longo desse processo, o medo assustador sobre todos os planos que poderiam ficar para trás, pois sim, o diagnóstico assusta! Ele muda tudo de um dia pro outro como eu disse anteriormente, ele bagunça seu entendimento sobre alguém que você jurou conhecer desde o dia um. Ela também me disse sobre o quanto aprendeu nesse processo, o quanto melhorou, o quanto se fez mais forte, não só por Resiliência, mas por todos seus filhos.

A MATERNIDADE É UM UNIVERSO NOVO

Todas essas mães lidam com medo, culpa, com o desconhecido e todas elas lutaram, mudaram, se transformaram e ainda com tudo isso, seguiram sendo suporte. Algumas mães como a Cris, fizeram disso uma luta pessoal, fazem parte da luta múltipla ao lado dos filhos entendendo que existem outros, como eles, que não tem o suporte básico para passar por esse processo. Algumas serão como a nossa, que se bastará dando suporte somente aos seus, mas entendendo, apoiando e dando suporte quando necessário.

Algumas dessas mães todas aqui, não quiseram se identificar, mas nos trouxeram seus relatos, e isso nos ajudou não só na escrita desse texto, mas também a entender que todas essas sensações, medo, motivações e até mesmo culpa por as vezes falhar, não é um sentimento exclusivo nosso ou que estamos sendo mães/pais ruins, mas sim humanos e humanos às vezes falham também.

A maternidade é sem dúvida um universo novo, curioso e assustador!

Entendemos que nem todas as mulheres são mães mesmo após gestar. Gostaríamos que essa realidade fosse diferente, mas nesse mês das mães, escolhemos honrar, mencionar, homenagear e lembrar daquelas que ficaram, que protegem e que como dissemos em algum momento desse texto, olharam pra todos os seus problemas que a maternidade estampou e escolheu que seria melhor. Se você é uma mãe que escolheu isso, obrigada!

FONTES E BIBLIOGRAFIA

Não existem fontes para texto pois ele totalmente autoral, produzido a partir dos relatos coletados em amostra com 3 sistemas-mães e 3 mães de sistemas.
Contudo, a Cristiane postou este vídeo sobre a experiência dela quando estavamos conversando e achamos de grande valia:
Disponível em: www.tiktok.com/@cristhianelima6/video/7639738661549985045
Adicionalmente, no Canal de Cogs, há um vídeo de entrevista com Helenice, onde alguns desses tópicos foram abordados. Na seção de comentários, também há dúvidas que mostram bem como algumas pessoas podem se intrigar com o tema. Se você chegou até aqui e tiver interesse, o link é:
Disponível em: www.youtube.com/watch?v=xINe6s1idgc

Complementarmente, a fins de aprofundamento, em linguagem técnica e para além da proposta do presente artigo, deixamos aqui alguns outros sobre o assunto:

– RELATO EXTRA NO SITE “THE MIGHTY” – MATERNINDADE COM TDI (DID)
https://themighty.com/topic/dissociative-identity-disorder/parent-mom-dissociative-identity-disorder
– ESTUDOS DE KLUFT DE 1987 SOBRE MÃES MÚLTIPLAS
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3594287