TEA e TDI

Principais Pontos

O QUE É TEA?

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento. Isso significa que está relacionado à forma como o cérebro se desenvolve e processa informações desde a infância.

O termo Espectro existe porque o autismo não é igual para todos. Ele se manifesta em diferentes níveis de suporte, desde pessoas com grandes habilidades intelectuais até aquelas que precisam de ajuda constante para tarefas básicas. Mais do que um conjunto de características, o autismo é uma forma particular de perceber, sentir e interpretar a realidade. Isso significa que está relacionado à forma como o
cérebro se desenvolve e processa informações desde a infância. Algumas pessoas podem ter altas habilidades cognitivas e grande autonomia, enquanto outras precisam de suporte significativo no dia a dia.

A Mudança do DSM-IV para o DSM-5

Antigamente, o autismo fazia parte de uma categoria chamada Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD). Dentro dessa “caixa”, existiam diagnósticos separados, como:

  • Autismo Infantil (ou Clássico);
  • Síndrome de Asperger;
  • Transtorno Desintegrativo da Infância;
  • Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação.
    Com a chegada do DSM-5 (e agora sua versão atualizada, o DSM-5-TR), todos esses diagnósticos foram unificados em um único termo: Transtorno do Espectro Autista (TEA).

    A única exceção foi a Síndrome de Rett, que saiu dessa classificação por ter uma causa
    genética específica identificada.

O TEA foi realocado para uma categoria maior chamada Transtornos do Neurodesenvolvimento.
Isso é importante porque coloca o autismo ao lado de outras condições que também afetam o desenvolvimento do cérebro desde cedo, como:

  • TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade);
  • DI (Deficiência Intelectual — antes chamada de retardo mental);
  • Transtornos de Aprendizagem e de Comunicação.

Em uma citação do artigo da JAMA, é explicado por que a ciência frequentemente usa a idade de 8 anos como base para pesquisas de prevalência:

  • Aos 8 anos, a criança já passou por tempo suficiente na escola e em convívio social para que as dificuldades de desenvolvimento fiquem evidentes.
  • É uma idade “padrão ouro” para identificar quem realmente está no espectro, pois casos mais leves já teriam sido notados até esse ponto.

SEMELHANÇAS ENTRE TEA E TDI

O TEA e o TDI possuem algumas características semelhantes, dentre eles:

Desconexão e “Shutdown”
Ambas as condições apresentam episódios onde a pessoa parece “ir para outro lugar” mentalmente:

    – No TEA: Ocorre o shutdown (desligamento) como resposta a uma sobrecarga sensorial ou emocional. A pessoa para de responder e se retrai.
    – No TDI: Ocorre a dissociação (despersonalização ou desrealização). A pessoa se sente desconectada do corpo ou do ambiente como defesa contra estresse ou gatilhos traumáticos.

    Para quem vê de fora, em ambos os casos a pessoa parece “ausente”, aérea ou incapaz de interagir naquele momento.

    Camuflagem Social (Masking)
    Ambos utilizam fachadas sociais para proteção, o que pode levar a um esgotamento mental severo em ambos os casos.

    – No TEA: A pessoa autista muitas vezes aprende a imitar comportamentos neurotípicos para “se encaixar” ou evitar bullying. Isso exige um esforço mental exaustivo.
    – No TDI: O sistema de identidades pode ter “partes” ou identidades específicas criadas para agir de forma “normal” em ambientes sociais (como trabalho ou escola), escondendo a existência do transtorno por segurança.

    Alteração de voz, Postura e Comportamento

    – No TEA: A pessoa pode variar o tom de voz (prosódia) ou usar expressões diferentes dependendo do seu nível de conforto ou do assunto (hiperfoco).
    – No TDI: Quando ocorre uma troca de identidade (switch), pode haver uma mudança clara no tom de voz, vocabulário, postura física e até em habilidades manuais.

    Essas mudanças súbitas de comportamento podem ser confundidas entre as duas condições se não houver uma investigação profunda.

    Sensibilidade sensorial e Autorregulação:

    – No TEA: Existe uma base biológica para a hipersensibilidade (sons altos, luzes fortes ou texturas). O stimming (movimentos repetitivos) ajuda a regular o sistema nervoso.
    – No TDI: A pessoa pode ter hipervigilância devido ao trauma, reagindo de forma exagerada a estímulos sensoriais que lembram o evento traumático. Também podem usar movimentos repetitivos para tentar se acalmar durante um flashback. (é comum sistemas também apresentam sensibilidade auditiva).

    A necessidade de autorregulação através de comportamentos repetitivos e a reatividade ao ambiente são comuns.

    Dificuldade em relacionamentos e Comunicação

    – No TEA: A dificuldade está no processamento das pistas sociais e na comunicação não verbal.
    – No TDI: As dificuldades surgem devido às falhas de memória (amnésia) ou porque identidades diferentes podem ter opiniões ou sentimentos distintos sobre as mesmas pessoas.

    Ambas as condições podem resultar em isolamento social ou sentimentos de “não pertencer” ao mundo ao redor.

    Aviso importante!

    Este conteúdo é baseado em uma pesquisa não-oficial, construída a partir de relatos da comunidade. Não se trata de um estudo clínico ou acadêmico, mas de uma revisão qualitativa de experiências reais compartilhadas por pessoas múltiplas que vivem com Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) e Transtorno do Espectro Autista (TEA).

    SOBRE A COEXISTÊNCIA DAS CONDIÇÕES

    Os relatos mostram que viver com TEA + TDI não é apenas a soma de duas condições, mas uma experiência única, onde aspectos sensoriais, emocionais e identitários se entrelaçam de formas complexas. Um dos padrões mais consistentes é a variação na necessidade de rotina entre alters:

    Alguns apresentam alta rigidez cognitiva, podendo entrar em crise com mudanças pequenas, enquanto outros lidam melhor com imprevistos. Muitos sistemas relatam evitar que alters mais sensíveis assumam o front em dias instáveis.

    A sobrecarga sensorial aparece como um dos pontos mais fortes na intersecção entre TEA e TDI:

    • Dissociação intensa (sensação de “blurry”, desconexão)
    • Perda de noção de tempo e espaço
    • Meltdowns e shutdowns
    • Em alguns casos, trocas involuntárias

    Além disso, alguns relatos descrevem impactos internos, como dificuldade de acessar o “headspace” e sensação de desorganização interna, ou seja, a rotina não é apenas externa, ela precisa ser negociada internamente.
    Outro padrão claro: nem todos os alters mascaram da mesma forma. Logo, alguns conseguem se adaptar socialmente (especialmente em trabalho). Outros não conseguem mascarar ou fazem isso com grande custo. As diferenças incluem:

    • comunicação
    • controle de stimming
    • tolerância sensorial
    • linguagem corporal

    Isso pode gerar uma percepção externa de “inconsistência”, quando na verdade reflete diferenças internas reais.

    A comunicação entre alters varia bastante:
    ● Sistemas com diagnóstico mais recente relatam mais dificuldade
    ● O TEA pode interferir pela interpretação literal de conceitos e dificuldade de identificar sinais internos
    ● Em alguns casos, a comunicação é estável — exceto em: crises e momentos de hiperfoco intenso

    Não existe um único padrão quando se fala em hiperfocos:
    ● Alguns sistemas compartilham interesses entre identidades
    ● Outros têm hiperfocos totalmente diferentes por alter
    ● Em muitos casos, há um “tema comum” (ex: interesses artístico, área de estudo)
    Além disso, o Hiperfoco pode bloquear a comunicação interna, especialmente quando intenso.

    A influência do TEA na identidade aparece de formas diferentes:

    • Dificuldade em construir uma identidade coesa
    • Sensação de fragmentação ampliada
    • Confusão sobre “quem está no front”
    • Em alguns sistemas: identificação clara entre alters, mas dificuldade no “eu”

    Como já dito, padrões observados nos relatos de pessoas múltiplas neurodivegentes no TEA, mostram que é comum diferentes alters terem opiniões divergentes sobre as mesmas pessoas e isso pode envolver amizades, relacionamentos, grau de confiança. Isto é, o TEA pode influenciar a intensidade do apego e a sensibilidade emocional, bem como a forma de interpretar relações.

    Sob estresse, há um padrão recorrente:
    ● Shutdown → dissociação, “apagamento”
    ● Meltdown → crises intensas e, às vezes, trocas rápidas/involuntárias

    Em alguns sistemas, alters menos mascarados são “chamados” ou engatilhados ao fronte para ajudar na regulação. Quando falamos em memória, oscilação é a palavra-chave, pois é afetada desde confiança alta até desconfiança significativa, assim como a leitura social que também costuma variar entre alters.

    ● Emoções:
    Situações de influência passiva no comportamento refletem o quanto as emoções podem “vazar” entre alters, tornando às vezes difíceis de se identificar (alexitimia); dificultando ainda mais a autorregulação.

    Ainda existem poucos estudos formais sobre pessoas que vivenciam TEA e TDI simultaneamente.
    No entanto, relatos da comunidade indicam que características associadas ao autismo podem aparecer em identidades específicas dentro de um sistema dissociativo. Não é como se apenas um alter possuísse o transtorno, mas sim como se cada alter tivesse uma forma de experienciá-lo.

    OS RELATOS

    Um exemplo é um sistema com 9 identidades onde apenas um apresenta características de comunicação diferenciada, onde a identidade sabe e consegue falar, mas tem uma comunicação quase exclusiva por meio de LIBRAS (Linguagem Brasileira de Sinais), apresenta hiperfoco em jogos como quebra-cabeças, um certo isolamento seletivo onde mesmo tendo boa relação com outros alters do próprio sistema, tem uma seletividade com a presença de alguns. Essas experiências reforçam a importância de uma escuta cuidadosa e de avaliações individualizadas, sem generalizações.

    A seguir, separamos alguns relatos de membros da comunidade, alguns não se sentiram à vontade para se identificar:

    SISTEMA PURPLE
    “É cansativo, as crises, a dificuldade social, a invalidação do mundo com nosso TEA. Cada um sente de alguma forma, cada tem sua própria forma de sentir o mundo, tentamos ao máximo nos encaixar para poder viver bem socialmente, mas é muito complicado quando se tem tantas formas de sentir, ver ou até de lembrar de algo, opiniões tão divergentes internamente que é complicado saber como viver no mundo. Já tivemos problemas onde um dia inteiro ninguém aqui conseguia se reconhecer, dias que pensávamos estarmos ótimos mas do nada uma crise fudida por conta de uma dificuldade de comunicação. Discussões complexas pois sentimos que as pessoas não entendem quando explicamos ou até mesmo a gente não se entende por conta da alexitimia que bate forte em alguns daqui Se ao menos nosso autismo fosse validado, respeitado e as pessoas entendessem, 70% dos nossos problemas seriam acabados.”

    SISTEMA EMUNDUS
    “É complicado viver em si, com TDI + TEA é mais complicado ainda. Cada alter tem suas peculiaridades e especialidades, assim também como seus próprios hiperfocos, e cabe a nós como Sistema se juntar para agradar a todos sem tirar a razão e sem prejudicar o próximo. Para Emundus, no outer, ainda é relativamente “tranquilo” visto que poucos alters têm o interesse de frontar e de fazer alguma coisa aqui, tal como seguir um hobbie ou hiperfoco em específico. O que mais prejudica, anteriormente citado, são os momentos de hiperfoco: quando alguém no front está em hiperfoco é quase IMPOSSÍVEL a comunicação interna visto que aglomera com pensamentos intrusivos e não se sabe quem tá falando ou de onde vem os “pensamentos”.”

    SISTEMA PIXEL
    “Bom, quando descobrimos o TDI, já tínhamos algumas estereotipias do TEA, mas como quase não se falava sobre, não foi investigado. Porém, uma alter aqui, chamada Alexis, ela veio com muitas estereotipias: andar na ponta dos pés, quase não falar, ter hiperfocos e hipersensibilidade, isso levou um questionamento para os mais antigos no sistema. Quando voltamos a fazer terapia, a psicóloga observou que eu (a core) também tinha algumas estereotipias, hipersensibilidade auditiva e sensorial, movimentos repetitivos com as mãos, quase não olhava no olho dela pra falar. Sim, eu ainda ando na ponta dos pés quando estou sem chinelos, tenho hipersensibilidade, mas não sou a única, o TEA afeta de forma diferente cada alter do sistema. Enquanto Ágatha fala sem parar de seus hiperfocos e tem pouquíssimos movimentos repetitivos, Alexis tem uma certa dificuldade na fala, se mexe bastante e não suporta qualquer barulho um pouco mais alto.”

    (Sistema não identificado)
    “O TEA cria um ambiente mental mais lúdico, temos 2 introjetos fictivos quem definitivamente tem relação aos nossos hiperfocos anteriores. O TEA causa dificuldade em entender o nosso próprio corpo e mente… então, muitas vezes temos dificuldade em desvendar quem está no corpo. Existem estudos que mostram a facilidade maior de autistas entendem suas experiências como traumas e eu acredito que o fato de sermos polifragmentados com muitas partes de traumas diversos com funções bem limitadas é afetado por essa vulnerabilidade mental.”

    CONCLUSÃO

    Falar sobre o TEA é também reconhecer a diversidade das experiências humanas. Ao aproximar o debate de outras condições, como o TDI, ampliamos o olhar e promovemos mais empatia, compreensão e respeito. A conscientização não é apenas sobre diagnóstico é sobre garantir que todas as formas de existência sejam reconhecidas e acolhidas.

    CRÉDITOS
    Agradecemos a todos os sistemas que se abriram e confiaram em nós para que esse post pudesse existir!

    Pesquisa e Redação: Sistema Felips
    Revisão de Pesquisa e Organização: Sistema Orquestra
    Revisão e Validação: Psicóloga Beatriz
    Diagramação e Publicação: Sistema Cogs

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais): Publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA).
    É a fonte principal para os critérios de TEA (299.00) e TDI (300.14).

    CID-11 (Classificação Internacional de Doenças): Publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
    Utilizada para a codificação global, onde o TEA está sob o código 6A02 e o TDI sob o código 6B64.

    JAMA Network (Journal of the American Medical Association):
    Especificamente o artigo de revisão de 2023 intitulado “Autism Spectrum Disorder: A Review”, que resume as evidências atuais sobre diagnóstico e tratamento.

    CDC (Centers for Disease Control and Prevention):
    Fonte dos dados de prevalência (como as estatísticas sobre TDI e TEA) a nível mundial.

    ISSTD (International Society for the Study of Trauma and Dissociation):
    Autoridade mundial que fornece as diretrizes clínicas para o entendimento e tratamento do TDI e outros transtornos dissociativos.

    The Haunted Self
    Desenvolvida por autores como Onno van der Hart, Ellert Nijenhuis e Kathy Steele, é um livro que explica como o trauma impede a integração da identidade, onde os autores propuseram a Teoria da Dissociação Estrutural, hoje amplamente aceita na comunidade especialista em dissociação e transtornos traumagênicos.

    ASAN (Autistic Self Advocacy Network):
    Fonte para conceitos como masking (camuflagem social) e a perspectiva da comunidade autista sobre o diagnóstico.

    FONTES COMPLEMENTARES (DE ESPECIALISTAS)

    Dr. Lucelmo Lacerda (Canal Luna ABA):
    Doutor em Educação e pesquisador, especialista em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e evidências científicas no autismo.
    Psi. Mayra Gaiato
    Psicóloga e neurocientista, especialista em desenvolvimento infantil e intervenção precoce no autismo.
    Autism and Dissociation, canal The CTAD Clinic
    No vídeo disponível em <www.youtube.com/watch?v=o0dfyWyjSbE> acessado em 29 de março 2026. O Dr Lloyd, especialista inglês em TDI, trauma e dissociação explica principais pontos da relação entre multiplicidade e neuroatipicidade e faz um apanhado geral sobre a sobreposição dessas condições nos pacientes (sistemas TDI ou OTDE com TEA).